O terceiro lugar do Concurso de Contos O espírito do Natal em Evidência foi para o conto “Encontro de Natal”, de André Luiz de Melo, estudante residente em Nova Pádua, Rio Grande do Sul. Seu conto é ambientado no corredor de um hospital, às vésperas do Natal, e, através do diálogo entre duas personagens desconhecidas, a história explora o milagre do Natal que subjaz a força divina e a experiência humana.
A seguir, publicamos na íntegra o conto de André Melo:
Encontro de Natal
No entardecer do dia 24 de dezembro havia apenas duas pessoas no corredor daquele hospital. Sentado em uma poltrona destinada a acompanhantes estava um homem idoso, com uma barba branca bem feita, vestindo uma camisa verde xadrez simples e uma calça de moletom. Mais a frente, andando de um lado para o outro, havia um rapaz visivelmente nervoso trajando um terno caro, porém desalinhado. O velho o observava já há bastante tempo, por fim resolveu arriscar uma aproximação. Levantou com pouca dificuldade da poltrona de espera e caminhou em direção ao seu insólito companheiro.
– Olá…
O rapaz parou imediatamente sua caminhada e encarou o homem com um misto de esperança e decepção. Na certa pensou que era o médico trazendo a notícia que tanto esperava. Percebendo esta reação, o senhor logo afirmou:
– Desculpe incomodá-lo, mas eu percebi que algo o está angustiando. Será que poso ajudar?
O jovem continuou olhando para o homem com aquele olhar de espanto, como se não compreendesse suas palavras. Então, sem dar aviso, começou a chorar.
Quando sentiu que ele estava mais calmo, o velho senhor conduziu o jovem até a poltrona que ocupara anteriormente, depois sumiu de vista no corredor.
Instantes mais tarde reapareceu com um copo d’água para seu novo amigo.
– Beba filho, vai se sentir melhor.
O jovem bebeu tudo em um só gole. As lágrimas ainda brotavam de seus olhos, mas o pranto desesperado estava controlado por hora.
– Como você se chama? – perguntou o idoso quando o rapaz lhe devolveu o copo vazio.
– Edgar.
– Se precisar de um amigo Edgar, pode contar comigo.
Edgar não tinha motivo nenhum para confiar naquele estranho, mas os olhos do velho transmitiam a sensação de tranquilidade. Pensando bem, bondade.
– Minha esposa está tendo bebê.
– Que boa notícia, parabéns.
Por algum motivo o cumprimento do velho fez Edgar voltar a chorar. Quando se recompôs, ele falou:
– Ela está de oito meses. O médico nos alertou sobre o risco de um parto prematuro. A gravidez dela é de alto risco.
– Sinto muito – disse o idoso, enquanto Edgar tomava fôlego para continuar falando.
– O médico deixou bem claro que não vai conseguir salvar as duas. Ela está esperando uma menina, minha primeira filha. Não me deixaram entrar na sala de cirurgia, sabe – Edgar voltou a soluçar – elas são tudo pra mim.
O velho ficou em silêncio por um tempo, então disse:
–Você não quer ir à capela do hospital?
– Para quê?
–Bem, é véspera de Natal. Deus sempre escuta nossas orações, principalmente nessa época do ano.
– Não quero ofender o senhor, mas sou ateu. Prefiro esperar aqui.
O velho homem apenas balançou a cabeça e o silêncio retornou ao corredor frio do hospital.
Tentando distrair o pensamento, Edgar por fim perguntou:
– E o senhor, por que está aqui, quero dizer, no hospital?
– Minha filha está internada aqui. Ela precisa de mim.
– E por que não vai rezar na igreja, já que o senhor confia tanto em Deus?
O velho o encarou com aqueles olhos bondosos e disse:
– Deus não está somente na igreja. Ele está em toda parte.
– Não neste hospital – Edgar apressou-se em replicar – Se Deus existisse mesmo eu não estaria aqui hoje.
– E onde você estaria agora, filho?
– Em casa, trocando presentes com minha família. Eles nem sabem que a Mariana foi internada.
Novamente o velho assentiu com a cabeça, antes de prosseguir:
– Você troca presentes e enfeita árvores, mas esqueceu o verdadeiro significado do Natal.
– Eu não quero ofender o senhor, mas se Jesus realmente existiu, ele não nasceu no dia 25 de dezembro. Portanto não me venha falar de significados do Natal.
– O importante não está na data em si, mas no que ela simboliza. Não estou falando de quando nasceu Jesus, mas do que ele nos ensinou. O Natal representa o amor, a paz. Você não precisa acreditar em Deus, basta amar. Você é um bom sujeito, por isso Deus te ama e vai cuidar de você e da sua família.
– Minha mulher sempre fez o bem, mesmo assim ela pode morrer, ou a minha filha que ainda nem nasceu. O senhor acha isso justo? Acha mesmo que Deus está cuidando delas?
O velho refletiu por um instante e respondeu:
– Na verdade, acho sim.
Edgar balançou a cabeça negativamente e acrescentou.
– Então por que isso está acontecendo? Por qual crime elas estão sendo punidas?
– Não é uma questão de punição filho, mas sim de amor. Os planos de Deus são misteriosos, mas talvez você deva passar por isso para ter fé. Milagres acontecem…
Ao longe, um relógio começou a badalar meia noite. O velho acrescentou:
– Principalmente hoje, que é Natal. Posso lhe dar um abraço?
Edgar ficou sem jeito de abraçar aquele estranho, mas de alguma forma sentia que já conhecia o velho há muito tempo.
Quando abraçava o novo amigo, Edgar ouviu passos no corredor. Era o médico. O rapaz foi ao encontro dele.
– Então doutor?
Ele não conseguia esconder a ansiedade. Lágrimas corriam por sua face.
– Só posso chamar de milagre, – disse o médico – o parto foi difícil, mas correu tudo bem. As duas estão ótimas e logo o senhor vai poder vê-las.
Edgar ria e chorava ao mesmo tempo. Abraçou o médico e, quando ele foi embora, dirigiu-se ao velho.
– Parece que o senhor tinha razão, correu tudo bem na operação, – o choro recomeçou, porém agora era de felicidade – elas vão ficar bem.
O velho homem sorriu e disse:
– Então acho que já vou indo.
– Mas e a sua filha?
– Ela está bem agora.
O médico reapareceu em uma porta e chamou Edgar. Quando ele percebeu o velho havia desaparecido.
Depois de ver a mulher e a filha, que receberia o nome de Ana, Edgar perguntou ao médico:
– Doutor, você sabe para onde foi o senhor que estava comigo no corredor?
– Senhor? Não havia ninguém no corredor, você estava sozinho.
Edgar olhou para a família, sorriu e disse baixinho.
– Não, Deus estava comigo.
– Como disse? – perguntou o médico.
Edgar sorriu e respondeu:
– Nada. Feliz Natal.
André Luiz de Melo