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Archive for agosto \22\UTC 2011

Na próxima edição, o Arte é… irá contemplar um pouco de nossas tradições,  já que, no mês de setembro, celebramos a Semana Farroupilha.

Para isso, o legado deixado pelo pesquisador Guilhermino César iluminará  nosso percurso de leitura, que também será inspirado na Estética do frio, do escritor e compositor Vitor Ramil.

Diferentes olhares e tempos sobre um mesmo espaço: eis que, assim, reconheceremos um pouco de nossa história individual pela problematização da história coletiva do povo sulino – um povo que soube, muitas vezes, andar pelo lado gauche da vida…

O colorido gauchesco foi assimilado como uma de nossas peculiaridades regionais, dentro da riqueza de tons com que se exprime a cultura brasileira, neste país de proporções gigantescas. Ao passo que, para os platinos, ele configura o próprio instinto nacional a lutar por uma expressão individualizadora.

Guilhermino César

Joaquim da Fonseca, Sem título

Aquarela, 1999, 46x34cm

Glauco Rodrigues, Sem título

Serigrafia, 1976, 36x44cm

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A seguir, um dos poemas mais conhecidos de Millôr Fernandes, para deleite dos leitores.

Nele, percebemos com clareza as sutilezas características da linguagem e da crítica do escritor, que sabe articular em cada estrofe o jogo irônico e matemático das palavras com a problematização dos valores inerentes à sociedade contemporânea.

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes

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