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Archive for dezembro \30\UTC 2011

O projeto do Arte é… para 2012 concentra-se nas expressões artísticas literárias, musicais, cinematográficas e visuais que ultrapassam as fronteiras do país.

Para isso, o Arte é… contará com novidades em sua produção editorial, que logo serão anunciadas.

Costa Pinheiro, "Fernando Pessoa - Heterônimos" Óleo sobre tela (1978)

Para a primeira edição de 2012, preparamos o melhor a literatura portuguesa: o mestre Fernando Pessoa.

Autor um legado libertário, capaz de romper os limites do humano e de revelar por inteiro o indivíduo em sua completude paradoxal, desnudo de máscaras e com a alma à mostra, Fernando Pessoa é leitura obrigatória para qualquer pessoa que queira passar pelo autoconhecimento e pela ressignificação através do melhor da literatura mundial.

A seguir, deixamos dois poemas de Álvaro de Campos, o mais combativo dos heterônimos de Pessoa. Passar literariamente por Campos é passar pela face obscura – e verdadeira – de si mesmo.

………………..

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,

Cada um a vida das linhas das vigias iluminada

E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.

Navios que se afastam ponteados de luz na treva,

Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro

Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

Álvaro de Campos

……………….. 

Poema em linha reta 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

 Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

[…]

Álvaro de Campos

……………….. 

 

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Mais uma vez… Natal! Para marcar artisticamente essa data iluminada, a Revista Evidência propôs, este ano,  um Natal literário. Assim surgiu a proposta do Concurso de Contos O espírito do Natal em Evidência, cujo intuito foi promover a cultura local e, ao mesmo tempo, a propagação de valores por meio da escrita literária. Entre setembro e novembro, foram recebidos contos de inspirações e temáticas diversas. Contos que, de um modo ou de outro, expressaram reflexões e valores vinculados ao espírito do Natal. Contos que falaram de amor e morte, guerra e paz, felicidade e tristeza, solidão e companheirismo. Contos que emocionaram por sua delicadeza e simplicidade.

A seguir, o leitor do Arte é… poderá receber as luzes e os mais puros sentimentos do Natal através da arte literária!

Boa leitura!


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O conto “O carvalho desajeitado”, de Jackson Felipe Reis, recebeu o primeiríssimo lugar no Concurso de Contos O espírito do Natal em Evidência. Pela história dos amigos Maria, Josef e Ali, o conto apresenta o contraste entre a inocência do mundo infantil e a pureza da amizade gratuita, de um lado, e o desrespeito às diferenças culturais e religiosas, a guerra e o ódio a destruir tudo o que passa em seu caminho, de outro. A amizade que supera o tempo, o espaço e a intolerância humana é palco para a trama narrativa, dotada de oscilações temporais e de diálogos provenientes da reconstituição de uma história finda, mas ainda presente na mente do narrador, que procura reconstituir a o passado familiar e, com ele, a essência do Natal.


A seguir, deixamos ao leitor este presente literário!

O carvalho desajeitado

Caía a noite quando os três amigos Maria, Josef e Ali se encontraram no local combinado, embaixo de um carvalho de médio porte, cujos galhos se retorciam com cada lufada de vento. A árvore era tão desajeitada que os habitantes daquele povoado no deserto evitavam observá-la por muito tempo, por receio da má sorte. No entanto os três amigos, tão logo se conheceram, elegeram a insignificante planta como ponto de encontro diário, longe dos olhos controladores dos pais.

Maria, Josef e Ali eram de famílias muito diferentes, mas partilhavam semelhantes sonhos, brincadeiras e personalidades. Apesar dos conflitos entre os adultos, as crianças nem se importavam e dedicavam-se a suas sadias diversões, como se não existisse nenhuma barreira entre elas.

Aquela noite de dezembro era especial, pois Maria iria mostrar aos amigos como sua família comemorava certa data festiva que se aproximava. Ali e Josef observavam espantados a menina depositar cuidadosamente sob a árvore imagens de gesso representando animais, pessoas e anjos. Chamou-lhes a atenção especialmente quando Maria pôs a imagem de um bebê deitado no que perecia um cesto de feno, ladeado por um casal de aparência piedosa.
    — Quem é esse? — perguntou Josef, o mais curioso dos três.
    — É o menino Jesus — explicou Maria —, aquele que nasceu em Belém e veio para nos salvar, como já contei ontem a vocês.
    — Meu pai me falou algo a respeito — lembrou Ali. —  Parece que era um grande profeta que morreu há muito tempo.
    — Ele morreu, mas ressuscitou e subiu ao céu — disse Maria — e agora olha por cada um de nós.
    Josef parecia incrédulo.
    — Esse bebê aí não parece o salvador do mundo, tão pequeno e tão pobrezinho.
    Maria abriu a boca para explicar algo ao amigo, mas foi interrompida por um grito raivoso. Os três meninos, assustados, viraram-se e deram com o pai de Ali, que tinha o rosto vermelho e bufava.
    — O que você está fazendo aí, misturado com esses dois infiéis imundos?! — berrou, agarrando o braço do filho com força e puxando-o para si. Quando viu as imagens de gesso, seus olhos se esbugalharam e o homem começou a pegar as estátuas e atirá-las ao tronco da árvore, fazendo-as espatifar em muitos pedaços, enquanto gritava: “Profanação! Sacrilégio!” Maria observava a cena, perplexa.
    — O presépio da minha mãe… — choramingou. Pensou no que seus pais fariam se descobrissem que as lindas e caras imagens compradas para aquele Natal haviam sido quebradas pelo velho vendedor de tapetes barbudo e fanático.   

Maria não entendia por que os pais de seus amigos não gostavam dela e de sua família. Eles tinham certos costumes muito diferentes: enquanto os pais de Josef frequentavam a sinagoga, rezavam a Javé e liam o livro “Torá”, os pais de Ali oravam a Alá debruçados em tapetes, voltados para Meca, e seguiam o que dizia um livro chamado “Alcorão”. Para a menina, aqueles hábitos eram estranhos, mas ela os respeitava, pela amizade de Ali e Josef.   

Ao chegar em casa, Maria explicou aos pais, muito receosa, o que acontecera sob o carvalho. Eles repreenderam a filha por ela ter saído de casa à noite para se encontrar com seus amigos, ainda mais naqueles tempos conflituosos e perigosos, porém não se abalaram com o radicalismo do pai de Ali, com o qual já estavam acostumados.
    — Minha filha — começou o pai —, seu amigo pertence a uma família fundamentalista, que não tolera a convivência com outros povos e religiões.
    — Dizem que um primo dele se envolveu com o terrorismo… — sussurrou a mãe.
   — Mas eles são exceções — continuou o pai —, porque aquela religião não prega o ódio e a intolerância, e sim o amor e a harmonia, assim como todas as outras crenças e culturas. Você tentou mostrar a seus amigos o espírito do Natal, mas o pai do Ali não entendeu. O espírito de paz, harmonia, união e fraternidade, esse sim o verdadeiro espírito do Natal, não é restrito a uma só religião, mas certas pessoas, cegadas pelo fanatismo, não compreendem. Vocês são ainda crianças, são sinceras e sem maldade, por isso o Natal de certa forma é voltado a vocês. Você nos orgulha, filha, porque, assim como a mãe de Jesus, que tem o mesmo nome que o seu, esforça-se para que todos se contagiem com o maravilhoso sentimento de amor que o Natal representa.
    — Não importa a religião ou o país onde se nasce —  falou a mãe —, mesmo com nossas diferenças, todos somos iguais.   

Maria ouviu as palavras de seus pais com surpresa e admiração. Sabia que no dia seguinte teria muito o que contar a seus amigos, assim que voltassem a se encontrar.   

Mas não houve dia seguinte. À véspera do Natal, o carvalho esquisito agitou seus galhos pela última vez. Pela manhã, um avião militar carregado de explosivos caiu sobre o povoado, dizimando quase toda a população. Mais uma vez, a guerra e o ódio mostravam seu maléfico poder. Mas não triunfaram sobre o espírito de paz do Natal, que um dia haverá de conquistar todos os corações humanos.

Quem me contou esta história foi minha avó Maria, a única sobrevivente do ataque ao seu povoado, há quase setenta anos. Após ser retirada de escombros por bondosos pastores, a menina encontrou um novo lar, mudou-se para o Brasil e aqui constituiu família. Ela nunca esqueceu aquele Natal que, apesar de ter sido o mais triste, foi ao mesmo tempo muito feliz, pois fez duas grandes amizades que guarda até hoje no coração, porque venceram os limites do tempo e as barreiras da intolerância.

Jackson Felipe Reis

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O segundo lugar do Concurso de Contos O espírito do Natal em Evidência ficou com Aline Cristian Cruz Silva, autora do conto “Um Natal inesquecível”. Seu conto apresenta as memórias de Otília, trazidas à tona pela narradora, que relembra saudosamente as histórias contadas pela avó. Em meio a revelações familiares, a narrativa conduz o leitor à percepção da luz que emana de sentimentos como o amor e a solidariedade.

Aline, de 44  anos, é casada, tem três filhas e um neto. Formada em Letras, com  pós-graduação em Gestão Pública pela UERGS, é professora estadual concursada de Cachoeirinha e professora municipal concursada de Gravataí.  Reside em Cachoeirinha, e este é o segundo concurso do qual faz parte, tendo sido selecionada em ambos – um exemplo que fica para seus amigos, familiares e alunos!

Deleite-se e emocione-se com mais este lindo conto de Natal!

Um Natal inesquecível

A primeira contadora de histórias que conheci foi a minha avó Otília. Não havia data comemorativa que não lhe trouxesse uma lembrança a ser compartihada, um causo curioso, uma boa história a ser contada.

            Neste Natal, ela não estará mais conosco. No dia 27 vai fazer um ano que ela nos deixou. Mas esta grande personagem sempre estará presente na memória de todos nós. E suas histórias, fictícias ou reais, tenho certeza, serão sempre lembradas geração após geração.

Mas  a mais especial de todas, sem dúvida, ela nos contou no Natal de 1977. 

            O Natal sempre foi para nós a data mais esperada do ano. Iniciada pelo aroma dos jasmins, as músicas e a decoração das lojas e shoppings, a competição de pisca-piscas das casas e jardins. A montagem da árvore com data marcada e que  vira motivo de festa. O verde, o vermelho e o dourado inundando a cidade; as listas e a compra dos presentes, a correria inevitável das ruas.

            Naquele Natal, depois da ceia, na hora de abrirmos os presentes, quando Daiane abriu o seu, e era um livro enorme, destes que ao ser folheado fazia surgirem castelos, dragões, fadas, cavaleiros, princesas e bruxas que se armavam, dona Otília comentou:

            – Este livro me lembra um outro, de muitos anos atrás, que também foi presente de Natal. Na verdade o primeiro livro de um menino que nunca tinha tido uma festa de Natal antes.

            – Conta aí, vó – disseram em coro Mariana e Juliana, as gêmeas da casa.

“Isso faz uns trinta anos. A família era formada pelo casal e mais três filhos. Moravam numa casa de dois quartos. Os pais trabalhavam o dia inteiro e as crianças ficavam em casa a maior parte do tempo sozinhas. Naquele dia, faltara  luz e a filha do meio,com a vela na mão, aproximou-se distraidamente da janela. O fogo espraiou-se rapidamente pela cortina. Foi a irmã mais velha que salvou as outras duas, cobrindo-as com o cobertor e carregando-as no colo.

 E ainda voltou, porque preocupou-se em salvar a boneca preferida da irmã, o presente de Natal do irmão, que já estava comprado; o vestido preferido da mãe,  e  a foto do avô, que o pai tinha mandado emoldurar recentemente. Mas felizmente, os bombeiros não demoraram a chegar, e ainda que a tivessem encontrado desacordada e bastante queimada, em dez dias, a menina teve alta.

Nesse período, uma romaria de vizinhos se ofereceu para reconstruir a casa e foram tantas as doações de roupas, utensílios e alimentos, que a mãe não achou justo nem decente que aquilo tudo não fosse repartido com quem mais precisasse.

De modo que quando a filha saiu do hospital, a mãe fez questão de cumprir a sua promessa e com a filha compartilhou em algumas entidades a solidariedade que recebera da vizinhança.

E foi assim que o que poderia ter sido uma tragédia maior transformou-se em motivo de alegria e conforto para muitas outras famílias. Gesto que, alíás ,passou a ser naturalmente e rigorosamente praticado em todos os Natais vindouros.

O que ninguém imaginava é que também a  vida daquela família jamais seria a mesma.

Foi num abrigo de crianças que mãe e filha conheceram um garoto muito especial. A empatia foi imediata e logo se instalou a  ideia de que poderiam apadrinhá-lo, levando-o para passar um Natal em família. O pai no início ficou reticente, mas a mãe que acreditava em milagres, fez ver-lhe que nada era por acaso e que toda a  a benção e graça que haviam recebido por ainda terem ao seu lado seus filhos vivos e sãos, não seriam pagas em uma vida. Sem falar em toda a ajuda que receberam até de desconhecidos para refazer o seu lar.

Então, pela primeira vez em sua vida, aquele menino enfeitou uma árvore de Natal. Vestindo roupas limpas e novas, sentou-se à mesa de uma casa modesta, de janelas sem cortinas, para saborear uma ave enorme rodeada de frutas,e depois, ao som de músicas que ele só conhecia das portas das lojas, abrir os embrulhos coloridos dos presentes. E o fez tão lentamente quanto pôde, para que tal momento nunca mais acabasse. Mas de todos os presentes: carrinho, bola e roupas, do que ele mais gostou foi o livro. Um livro parecido com este, que tu ganhaste hoje, Daiane!

Aquele foi um Natal para nunca mais se esquecer. Aliás, foi o primeiro de muitos Natais que Gabriel viveu com essa família. Na verdade, que vive até hoje!!”

Minha avó terminou a história bastante emocionada. Emocionados estávamos todos nós, é claro. Especialmente meu pai, que a abraçou com lágrimas mal contidas, recordando aquele Natal, o seu primeiro Natal.

E foi assim,  que eu e minhas irmãs descobrimos estupefatas a origem do meu pai, contada pela minha própria avó Otília – a maior contadora de histórias que conheci em toda a minha vida – naquele Natal que será para sempre inesquecível.

Aline Cristian Cruz Silva

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O terceiro lugar do Concurso de Contos O espírito do Natal em Evidência foi para o conto “Encontro de Natal”, de André Luiz de Melo, estudante residente em Nova Pádua, Rio Grande do Sul. Seu conto é ambientado no corredor de um hospital, às vésperas do Natal, e, através do diálogo entre duas personagens desconhecidas, a história explora o milagre do Natal que subjaz a força divina e a experiência humana.

A seguir, publicamos na íntegra o conto de André Melo:

Encontro de Natal

No entardecer do dia 24 de dezembro havia apenas duas pessoas no corredor daquele hospital. Sentado em uma poltrona destinada a acompanhantes estava um homem idoso, com uma barba branca bem feita, vestindo uma camisa verde xadrez simples e uma calça de moletom. Mais a frente, andando de um lado para o outro, havia um rapaz visivelmente nervoso trajando um terno caro, porém desalinhado. O velho o observava já há bastante tempo, por fim resolveu arriscar uma aproximação. Levantou com pouca dificuldade da poltrona de espera e caminhou em direção ao seu insólito companheiro.

 – Olá…

O rapaz parou imediatamente sua caminhada e encarou o homem com um misto de esperança e decepção. Na certa pensou que era o médico trazendo a notícia que tanto esperava. Percebendo esta reação, o senhor logo afirmou:

– Desculpe incomodá-lo, mas eu percebi que algo o está angustiando. Será que poso ajudar?

O jovem continuou olhando para o homem com aquele olhar de espanto, como se não compreendesse suas palavras. Então, sem dar aviso, começou a chorar.

Quando sentiu que ele estava mais calmo, o velho senhor conduziu o jovem até a poltrona que ocupara anteriormente, depois sumiu de vista no corredor.

Instantes mais tarde reapareceu com um copo d’água para seu novo amigo.

– Beba filho, vai se sentir melhor.

O jovem bebeu tudo em um só gole. As lágrimas ainda brotavam de seus olhos, mas o pranto desesperado estava controlado por hora.

– Como você se chama? – perguntou o idoso quando o rapaz lhe devolveu o copo vazio.

– Edgar.

– Se precisar de um amigo Edgar, pode contar comigo.

 Edgar não tinha motivo nenhum para confiar naquele estranho, mas os olhos do velho transmitiam a sensação de tranquilidade. Pensando bem, bondade.

– Minha esposa está tendo bebê.

– Que boa notícia, parabéns.

Por algum motivo o cumprimento do velho fez Edgar voltar a chorar. Quando se recompôs, ele falou:

– Ela está de oito meses. O médico nos alertou sobre o risco de um parto prematuro. A gravidez dela é de alto risco.

– Sinto muito – disse o idoso, enquanto Edgar tomava fôlego para continuar falando.

– O médico deixou bem claro que não vai conseguir salvar as duas. Ela está esperando uma menina, minha primeira filha. Não me deixaram entrar na sala de cirurgia, sabe – Edgar voltou a soluçar – elas são tudo pra mim.

O velho ficou em silêncio por um tempo, então disse:

–Você não quer ir à capela do hospital?

– Para quê?

–Bem, é véspera de Natal. Deus sempre escuta nossas orações, principalmente nessa época do ano.

– Não quero ofender o senhor, mas sou ateu. Prefiro esperar aqui.

O velho homem apenas balançou a cabeça e o silêncio retornou ao corredor frio do hospital.

Tentando distrair o pensamento, Edgar por fim perguntou:

– E o senhor, por que está aqui, quero dizer, no hospital?

– Minha filha está internada aqui. Ela precisa de mim.

– E por que não vai rezar na igreja, já que o senhor confia tanto em Deus?

O velho o encarou com aqueles olhos bondosos e disse:

– Deus não está somente na igreja. Ele está em toda parte.

– Não neste hospital – Edgar apressou-se em replicar – Se Deus existisse mesmo eu não estaria aqui hoje.

– E onde você estaria agora, filho?

– Em casa, trocando presentes com minha família. Eles nem sabem que a Mariana foi internada.

Novamente o velho assentiu com a cabeça, antes de prosseguir:

– Você troca presentes e enfeita árvores, mas esqueceu o verdadeiro significado do Natal.

– Eu não quero ofender o senhor, mas se Jesus realmente existiu, ele não nasceu no dia 25 de dezembro. Portanto não me venha falar de significados do Natal.

– O importante não está na data em si, mas no que ela simboliza. Não estou falando de quando nasceu Jesus, mas do que ele nos ensinou. O Natal representa o amor, a paz. Você não precisa acreditar em Deus, basta amar. Você é um bom sujeito, por isso Deus te ama e vai cuidar de você e da sua família.

– Minha mulher sempre fez o bem, mesmo assim ela pode morrer, ou a minha filha que ainda nem nasceu. O senhor acha isso justo? Acha mesmo que Deus está cuidando delas?

O velho refletiu por um instante e respondeu:

– Na verdade, acho sim.

­Edgar balançou a cabeça negativamente e acrescentou.

– Então por que isso está acontecendo? Por qual crime elas estão sendo punidas?

– Não é uma questão de punição filho, mas sim de amor. Os planos de Deus são misteriosos, mas talvez você deva passar por isso para ter fé. Milagres acontecem…

Ao longe, um relógio começou a badalar meia noite. O velho acrescentou:

– Principalmente hoje, que é Natal. Posso lhe dar um abraço?

Edgar ficou sem jeito de abraçar aquele estranho, mas de alguma forma sentia que já conhecia o velho há muito tempo.

Quando abraçava o novo amigo, Edgar ouviu passos no corredor. Era o médico. O rapaz foi ao encontro dele.

– Então doutor?

Ele não conseguia esconder a ansiedade. Lágrimas corriam por sua face.

– Só posso chamar de milagre, – disse o médico – o parto foi difícil, mas correu tudo bem. As duas estão ótimas e logo o senhor vai poder vê-las.

Edgar ria e chorava ao mesmo tempo. Abraçou o médico e, quando ele foi embora, dirigiu-se ao velho.

– Parece que o senhor tinha razão, correu tudo bem na operação, – o choro recomeçou, porém agora era de felicidade – elas vão ficar bem.

O velho homem sorriu e disse:

– Então acho que já vou indo.

­– Mas e a sua filha?

– Ela está bem agora.

O médico reapareceu em uma porta e chamou Edgar. Quando ele percebeu o velho havia desaparecido.

Depois de ver a mulher e a filha, que receberia o nome de Ana, Edgar perguntou ao médico:

– Doutor, você sabe para onde foi o senhor que estava comigo no corredor?

– Senhor? Não havia ninguém no corredor, você estava sozinho.

Edgar olhou para a família, sorriu e disse baixinho.

– Não, Deus estava comigo.

– Como disse? – perguntou o médico.

Edgar sorriu e respondeu:

– Nada. Feliz Natal.

André Luiz de Melo

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