Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \30\UTC 2012

O mês de abril não pode passar em branco por aqueles que possuem como principal deleite os livros e a leitura deles derivada. Em especial porque o Dia Mundial do Livro é uma homenagem da UNESCO aos célebres escritores William Shakespeare (escritor inglês nascido em Stratford-upon-Avon) e Miguel de Cervantes (escritor espanhol nascido em Alcalá de Henares), que têm a data de falecimento registrada no mesmo dia do mesmo ano, 23 de abril de 1616.

Além disso, tal data está vinculada a São Jorge , padroeiro em diversos lugares, como a Inglaterra e a Espanha. Por ele e por Cervantes, foi originada na Catalunha, há séculos, a tradição de trocar livros por rosas, rosas por livros – tradição que, como podemos ver a seguir, representa o amor e a cultura, ou melhor, o amor pela cultura.

Ao findar o mês de abril, transformamos, aqui, rosas em palavras para homenagear Cervantes – mestre que deu origem ao maior marco do romance na modernidade, a obra El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, mais conhecida como  Dom Quixote (1605).

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

São Jorge: Dia do livro e da rosa

É muito difícil definir a data exata que marcou o início da tradição popular de oferecer rosas no dia de São Jorge. Deve ser muito antiga, já que, desde o século XV há constância da celebração da Feira das Rosas no dia de São Jorge. Esta mesma antiguidade traz a tentação de buscar uma relação entre uma tradição popular e o simbolismo do amor cortês que a rosa representa. Mais além das possíveis teorias que possam justificar a tradição, o mais importante é que se tenha mantido viva e seja um símbolo indiscutível da Catalunha. Em 1926 a Espanha instaurou o dia 23 de Abril como Dia do Livro pois esta data coincide com a morte de Cervantes, imitando a Inglaterra que já o celebrava no mesmo dia porque também coincide com a morte de Shakespeare. A celebração enraizou-se rapidamente em Barcelona e estendeu-se na Catalunha, mas o propósito oficial diluiu-se ao coincidir com o dia do Santo Padroeiro. Enquanto em outros lugares se mantinha de maneira muito escassa ou desaparecia, na Catalunha tornou-se um dos dias populares mais celebrados e ao mesmo tempo ajudou muito a potenciar a difusão e a venda do livro catalão. Assim, na Catalunha, o 23 de Abril é o dia de São Jorge, da rosa e do livro: o dia do Santo Padroeiro, do amor e da cultura. É, decididamente, um dia de civismo, de cultura e de respeito entre todas as pessoas que vivem na Catalunha e, por extensão, todas as pessoas e todas as culturas do mundo.

Read Full Post »

O Brasil perdeu, no dia 27 de março deste ano, um de seus grandes escritores, cartunistas e tradutores. Responsável por uma linguagem tantas vezes mordaz, repleta de entrelinhas e desnudamento, Millôr representou a liberdade e a crítica na literatura brasileira contemporânea.

A seguir, deixamos algumas frase do autor e um de seus poemas mais conhecidos, a “Poesia matemática”, como homenagem a esse  irreverente ícone de nossas artes.

Boa leitura!

E chega de heróis. O homem tem de se convencer de que o mais importante de tudo é o dia a dia. O homem vive é todo o dia.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!

Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro.

Para aprender muito é fundamental, antes de mais nada, ser bastante ignorante.

Conservadoristas, regionalistas, nacionalistas e populistas da cultura; forget. Cultura não tem pátria, nem jeito, nem local, nem hora. Vem de todos os lados, por todos os caminhos.

A invenção da roda foi de importância relativa. A ideia genial foi botar uma carga em cima da roda e, na frente dela, puxando a roda e a carga, um homem pobre. Inventava-se, ao mesmo tempo, a tração animal e o proletariado.

No primário, aprendi a gostar de estudar e a ler por causa de uma professora, Isabel Mendes. Nunca esqueci o dia em que ela me ensinou a ver as horas. Fiquei espantado em ver que um marcava 8 horas e o seguinte, 8h05. Foi quando percebi aquilo de mais banal na vida, a consciência de que o tempo está sempre à sua frente, faça você o que fizer. Passei dois ou três anos sem estudar. Quando eu ganhei o primeiro dinheiro, fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios – curso de cinco a seis anos, que não cheguei a concluir porque já era “famoso” à época – com 20 anos já ganhava o maior salário da imprensa. Devo ter saído do colégio aos 18 anos. Portanto, tudo o que aprendi foi no primário. Depois de um primário sólido, você pode ser um autodidata. Foi a professora Isabel Mendes quem me ensinou a coisa mais importante em didática – a gostar de estudar.

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes


Read Full Post »