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As inscrições estão abertas para o II Concurso de Contos

“O espírito do Natal em Evidência”!

Os mais belos sentimentos e os mais profundos valores têm, mais uma vez, a oportunidade de serem transfigurados em arte por meio da literatura.

Participe!

Acesse o regulamento abaixo:

Regulamento 2012

Anexo A 2012

Anexo B 2012

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Continent, city, country, society:
the choice is never wide and never free.
And here, or there…No. Should we have stayed at home,
wherever that may be?

Elizabeth Bishop

Neste mês de setembro, a seção “Arte é” da Revista Evidência aborda os feitos poéticos da escritora norte-americana Elizabeth Bishop, que deixou, ao longo do século XX, um legado literário repleto de plasticidade  e simbolismo.Viajante do tempo e do espaço, Bishop foi uma mulher solitária e à frente de seu tempo, ultrapassano padrões e preconceitos.

Sua história esteve, por vários anos,  conectada aos espaços brasileiros,  em especial os do Rio de Janeiro, fato que pode ser observado em muitos de seus poemas. Como tradutora, verteu para a língua inglesa poemas de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes.

Dentre suas principais obras, estão North & South (1946), Questions of travel (1965) e Geography III (1976 – livros quetem como matriz comum a preocupação com os espaços íntimos e externos, noturnos e diurnos, imaginários e reais.

Rain towards morning
The great light cage has broken up in the air,
freeing, I think, about a million birds
whose wild ascending shadows will not be back,
and all the wires come falling down.
No cage, no frightening birds; the rain
is brightening now. The face is pale
that tried the puzzle of their prison
and solved it with an unexpected kiss,
whose freckled unsuspected hands alit. 
Elizabeth Bishop

A prosa é o diurno, a poesia é a noite: se alimenta de monstros e símbolos, é a linguagem das trevas e dos abismos. Portanto, não há grande romance que, em última instância, não seja poesia.

Ernesto Sábato

Dentro da arte hispânica, destacamos três grandes nomes que possibilitaram não apenas a internacionalização da literatura argentina, mas, em especial, que revolucionaram as formas de ler e dizer o mundo: Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Ernesto Sábato, o grande escritor da consciência trágica na literatura desse país. Nascido em Rojas, filho de uma família de descendentes italianos, Sábato viveu entre três grandes “eus”: o cientista, o artista plástico e o escritor. Formado pela Faculdade de Ciências Físico-Matemáticas, em Buenos Aires, realizou seus estudos de Doutorado em Paris. A seguir, deixou a ciência para enveredar pelos caminhos da literatura, em especial do romance. A obra que estabelece um marco entre essas duas instâncias – a ciência e a arte – é Nós e o universo(1945), sua primeira publicação.

Escritor entre os grandes nomes da literatura hispânica, Sábato publicou, como ensaísta, uma vasta obra, da qual há destaque para O outro rosto do peronismo (1956), O escritor e seus fantasmas (1963), A cultura na encruzilhada nacional  (1973), Entre a Letra e o Sangue (1988) e A Resistência (2000). Na ficção, há destaque para O túnel (1948), Sobre heróis e tumbas (1961) e Abaddón, o exterminador (1974). Por seus romances, é possível estabelecermos o perfil crítico e tantas vezes sombrio do autor.

Escritor que registrou em palavras os problemas da condição humana, Sábato viu no romance uma forma de resposta e resistência à barbárie a que a civilização está submetida. Viu na literatura a esperança para um mundo feito de homens desprovidos de deuses.

Viajar é sempre um pouco superficial. O escritor de nosso tempo deve afundar na realidade. Viajar deve ser afundar, paradoxalmente, no lugar e nos seres de seu próprio rincão. O resto é coisa de frívolos, de meros cronistas, de snobes. Viajar, sim; mas para ver com perspectiva seu próprio mundo, para nele afundar. Assim como o conhecimento de nós mesmos passa pelos demais, só podemos indagar e conhecer a fundo nossa pátria conhecendo as que não nos pertencem.

Ernesto Sábato, O escritor e seus fantasmas

O que há de verdadeiramente aterrador em Dostoiévski é que seus livros são nutridos com a sua carne, o seu sangue, a sua alma, a sua vida, com todos os seus pensamentos e o seu ofrimento integral.

Ruth Guimarães

Falar de Doistoiévski é falar da experiência humana pelo viés subterrâneo. É admitir as forças e as fraquezas intrínsecas à alma humana e desfiá-las uma a uma. É conhecer os mistérios individuais, as obscuridades da mente, as entrelinhas do ser. Através do texto elaborado por Eduardo Pereira Machado, disponível na edição 165 da Revista Evidência (http://www.revistaevidencia.com.br/edicoes.html?), é possível ao leitor enveredar pelos desvãos da literatura psicológica em seu cerne. É possível perceber por que Dostoiévski se tornou influência e referência a escritores e leitores dos séculos XX e XXI.

A melhor definição que posso dar a um homem é a de um ser que se habitua a tudo.

Dostoiévski

Em nossa proposta de voar pelas artes do Ocidente em 2012, está a análise do trabalho do músico francês Yann Tiersen. Seu legado artístico torna mais rica a música instrumental contemporânea, principalmente pelo modo como coloca lado a lado o velho e e o novo, o clássico e  o inovador.

Nascido em Bretagne (1970), Tiersen é responsável pela criação de músicas envolventes, marcadas pela combinação de diferentes instrumentos musicais, como acordeon, piano, cravo, violino, violão e xilofone. Outros recursos sonoros, a exemplo da máquina de escrever, são utilizados em suas experimentações, sem que seja perdida a harmonia sonora. Tal soma dá origem a músicas repletas de estilo e originalidade, por vezes presentes em trilhas sonoras de filmes europeus, como o longa-metragem francês dirigido por Jean-Pierre Jeunet, Le fabuleux destin d’Amélie Poulain (2001) e o alemão dirigido por Wolfgang Becker, Good Bye Lenin! (2003).

Dentre suas obras mais importantes, estão os álbuns La Valse des monstres (1995), L’Absente (2001), Les Retrouvailles (2005), Dust Lane (2010) e Skyline (2011), além de Amélie Original Soundtrack (2001) e Good Bye Lenin! Original Soundtrack(2003). Com os acordes alados deste gênio da música multi-instrumental, é possível tecer verdadeiras viagens pela alma humana.

Temos que encontrar uma nova forma de organizar o mundo.

Yann Tiersen

O mês de abril não pode passar em branco por aqueles que possuem como principal deleite os livros e a leitura deles derivada. Em especial porque o Dia Mundial do Livro é uma homenagem da UNESCO aos célebres escritores William Shakespeare (escritor inglês nascido em Stratford-upon-Avon) e Miguel de Cervantes (escritor espanhol nascido em Alcalá de Henares), que têm a data de falecimento registrada no mesmo dia do mesmo ano, 23 de abril de 1616.

Além disso, tal data está vinculada a São Jorge , padroeiro em diversos lugares, como a Inglaterra e a Espanha. Por ele e por Cervantes, foi originada na Catalunha, há séculos, a tradição de trocar livros por rosas, rosas por livros – tradição que, como podemos ver a seguir, representa o amor e a cultura, ou melhor, o amor pela cultura.

Ao findar o mês de abril, transformamos, aqui, rosas em palavras para homenagear Cervantes – mestre que deu origem ao maior marco do romance na modernidade, a obra El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, mais conhecida como  Dom Quixote (1605).

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

São Jorge: Dia do livro e da rosa

É muito difícil definir a data exata que marcou o início da tradição popular de oferecer rosas no dia de São Jorge. Deve ser muito antiga, já que, desde o século XV há constância da celebração da Feira das Rosas no dia de São Jorge. Esta mesma antiguidade traz a tentação de buscar uma relação entre uma tradição popular e o simbolismo do amor cortês que a rosa representa. Mais além das possíveis teorias que possam justificar a tradição, o mais importante é que se tenha mantido viva e seja um símbolo indiscutível da Catalunha. Em 1926 a Espanha instaurou o dia 23 de Abril como Dia do Livro pois esta data coincide com a morte de Cervantes, imitando a Inglaterra que já o celebrava no mesmo dia porque também coincide com a morte de Shakespeare. A celebração enraizou-se rapidamente em Barcelona e estendeu-se na Catalunha, mas o propósito oficial diluiu-se ao coincidir com o dia do Santo Padroeiro. Enquanto em outros lugares se mantinha de maneira muito escassa ou desaparecia, na Catalunha tornou-se um dos dias populares mais celebrados e ao mesmo tempo ajudou muito a potenciar a difusão e a venda do livro catalão. Assim, na Catalunha, o 23 de Abril é o dia de São Jorge, da rosa e do livro: o dia do Santo Padroeiro, do amor e da cultura. É, decididamente, um dia de civismo, de cultura e de respeito entre todas as pessoas que vivem na Catalunha e, por extensão, todas as pessoas e todas as culturas do mundo.

O Brasil perdeu, no dia 27 de março deste ano, um de seus grandes escritores, cartunistas e tradutores. Responsável por uma linguagem tantas vezes mordaz, repleta de entrelinhas e desnudamento, Millôr representou a liberdade e a crítica na literatura brasileira contemporânea.

A seguir, deixamos algumas frase do autor e um de seus poemas mais conhecidos, a “Poesia matemática”, como homenagem a esse  irreverente ícone de nossas artes.

Boa leitura!

E chega de heróis. O homem tem de se convencer de que o mais importante de tudo é o dia a dia. O homem vive é todo o dia.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!

Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro.

Para aprender muito é fundamental, antes de mais nada, ser bastante ignorante.

Conservadoristas, regionalistas, nacionalistas e populistas da cultura; forget. Cultura não tem pátria, nem jeito, nem local, nem hora. Vem de todos os lados, por todos os caminhos.

A invenção da roda foi de importância relativa. A ideia genial foi botar uma carga em cima da roda e, na frente dela, puxando a roda e a carga, um homem pobre. Inventava-se, ao mesmo tempo, a tração animal e o proletariado.

No primário, aprendi a gostar de estudar e a ler por causa de uma professora, Isabel Mendes. Nunca esqueci o dia em que ela me ensinou a ver as horas. Fiquei espantado em ver que um marcava 8 horas e o seguinte, 8h05. Foi quando percebi aquilo de mais banal na vida, a consciência de que o tempo está sempre à sua frente, faça você o que fizer. Passei dois ou três anos sem estudar. Quando eu ganhei o primeiro dinheiro, fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios – curso de cinco a seis anos, que não cheguei a concluir porque já era “famoso” à época – com 20 anos já ganhava o maior salário da imprensa. Devo ter saído do colégio aos 18 anos. Portanto, tudo o que aprendi foi no primário. Depois de um primário sólido, você pode ser um autodidata. Foi a professora Isabel Mendes quem me ensinou a coisa mais importante em didática – a gostar de estudar.

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes